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Desprescrição no Consultório Farmacêutico: 3 Medicamentos Excessivamente Usados por Idosos (e Como Intervir)


 

A polifarmácia e a inércia terapêutica representam um dos maiores desafios no cuidado à saúde do idoso. Frequentemente, diretrizes clínicas são atualizadas, alertas de segurança são emitidos por entidades internacionais e medicamentos entram na lista de potencialmente inapropriados para idosos (como o Critério de Beers da Sociedade Americana de Geriatria). No entanto, na prática diária, o uso dessas terapias continua enraizado por velhos hábitos.

O conceito de que "medicamentos são fáceis de iniciar, mas difíceis de parar" exemplifica a necessidade de um acompanhamento focado na desprescrição e no uso racional de fármacos.

No consultório farmacêutico, o profissional de saúde está posicionado de forma estratégica para identificar o uso inapropriado, orientar o paciente e atuar em conjunto com o médico assistente para promover a desprescrição segura.

Com base em dados recentes publicados na literatura científica e no Medscape, analisamos 3 classes de medicamentos amplamente utilizadas em excesso por idosos e como estruturar a abordagem clínica.

1. Benzodiazepínicos e Drogas Z: O Risco Oculto de Quedas e Dependência

Embora os riscos dos benzodiazepínicos (como diazepam, clonazepam e alprazolam) e das "drogas Z" (como zolpidem) em idosos sejam documentados há mais de 20 anos, a prescrição e o consumo continuam elevados.

  • Os Riscos Clínicos: Em idosos, essas substâncias alteram o equilíbrio, a coordenação motora e a cognição, aumentando drasticamente o risco de quedas, fraturas e acidentes. Além disso, o uso prolongado gera dependência e tolerância, enquanto a associação com opioides eleva o risco de overdose.

  • O Cenário Atual: Estudos apontam que cerca de um terço dos idosos em uso de benzodiazepínicos utiliza o medicamento por mais de 6 meses contínuos.

  • Atuação no Consultório Farmacêutico: O farmacêutico nunca deve orientar a interrupção abrupta, pois isso pode desencadear sintomas graves de abstinência. A conduta correta envolve a elaboração de um plano de desmame gradual (tapering) monitorado, que pode levar várias semanas ou meses, aliado à higiene do sono e terapias não farmacológicas para ansiedade.

2. Antibióticos: A Inércia Terapêutica em Quadros Leves e Não Bacterianos

O uso excessivo de antibióticos em idosos é uma das principais causas de reações adversas graves em serviços de emergência (como náuseas, vômitos e diarreias severas), infecções por Clostridioides difficile e aumento da resistência antimicrobiana.

  • Diverticulite Não Complicada: Historicamente tratada com fluoroquinolonas ou amoxicilina + clavulanato, a diverticulite não complicada hoje possui diretrizes claras (desde 2015) contra a prescrição de rotina de antibióticos. Estudos clínicos mostram que o uso de antimicrobianos nesses casos não reduz complicações ou mortalidade. Na maioria dos casos, o manejo sintomático e suporte dietético são suficientes.

  • Outras Indicações Inapropriadas: Bacteriúria assintomática (que não deve ser tratada com antibióticos na ausência de sintomas urinários em idosos) e infecções de vias aéreas superiores de origem viral.

  • Atuação no Consultório Farmacêutico: Na anamnese e na revisão da farmacoterapia, o farmacêutico deve avaliar a real indicação e encorajar o paciente a questionar e entender a justificativa da prescrição antes de iniciar o uso desnecessário de antimicrobianos.

3. Aspirina (AAS) em Prevenção Primária: Os Riscos Superam os Benefícios

A aspirina em baixa dose é amplamente utilizada de forma automedicada por idosos com o objetivo preventivo cardiovascular. Contudo, há uma clara distinção entre prevenção primária e secundária:

  • Prevenção Secundária: Em pacientes com histórico de infarto, AVC, stent ou cirurgia de revascularização, o benefício do AAS é comprovado e indicado.

  • Prevenção Primária: Para idosos sem histórico de eventos cardiovasculares, diretrizes do American College of Cardiology, American Heart Association e US Preventive Services Task Force recomendam contra o uso de rotina de aspirina acima dos 60 a 70 anos. Os grandes ensaios clínicos demonstraram benefício cardiovascular insignificante em comparação ao risco aumentado de sangramentos gastrointestinais e intracranianos.

  • Atuação no Consultório Farmacêutico: Como o AAS é um medicamento isento de prescrição (MIP) frequentemente iniciado pelo próprio paciente, o farmacêutico deve realizar o rastreio e educar o paciente. Estratégias como o controle da pressão arterial e o uso de estatinas para dislipidemia oferecem proteção cardiovascular muito mais segura e eficaz na prevenção primária.

Como Estruturar o Serviço de Desprescrição na Sua Consulta Farmacêutica

Para transformar esses pontos em um serviço estruturado no seu consultório, siga um fluxo clínico de 4 etapas:

  1. Revisão Sistemática da Farmacoterapia (Brown Bag Consultation): Peça para o paciente trazer todos os medicamentos em uso (prescritos e automedicados).

  2. Identificação de Medicamentos Potencialmente Inapropriados (MPI): Utilize ferramentas validadas, como os Critérios de Beers ou STOPP/START, para triar benzodiazepínicos, AAS preventivo e uso prolongado de antibióticos/IBPs.

  3. Avaliação do Risco x Benefício e Metas do Paciente: Analise se a indicação original ainda se mantém e qual o impacto na qualidade de vida e na autonomia do idoso.

  4. Plano de Cuidado e Intervenção Interprofissional: Elabore um parecer farmacêutico fundamentado para o médico responsável, propondo a desprescrição, substituição ou desmame gradual do medicamento.

A desprescrição não significa abandonar o tratamento, mas sim otimizar a farmacoterapia para garantir que o idoso utilize apenas o que é estritamente necessário, seguro e eficaz.

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Kelen Vitorazzi Farmacêutica Clínica, Especialista em Oncologia e Mentoria para Consultório Farmacêutico.

 

SPAN, Paula. 3 Common Drugs Older Adults Might Be Overusing. KFF Health News / Medscape, 18 set. 2026. Disponível em: https://www.medscape.com/s/viewarticle/3-common-drugs-older-adults-might-be-overusing-2026a1000yum. Acesso em: 22 set. 2026.

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