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Insônia no Tratamento Oncológico: Terapia Cognitivo-Comportamental Remota Surge Como Aliada Durante a Quimioterapia


A insônia é uma das queixas mais frequentes e debilitantes em pacientes em tratamento contra o câncer. Estimativas indicam que entre 30% e 60% dos adultos diagnosticados com câncer enfrentam distúrbios do sono. No caso de mulheres em acompanhamento por câncer de mama, até 62% relatam má qualidade de sono e 43% sofrem com fadiga moderada a grave, problemas que se intensificam drasticamente durante a quimioterapia ativa.

Apesar de as diretrizes já recomendarem o rastreamento do sono e indicarem a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) como primeira linha de tratamento, a maioria das evidências científicas avaliava a intervenção apenas após a conclusão do tratamento antineoplásico.

Um novo ensaio clínico publicado no JAMA Network Open (setembro de 2026), liderado pelo Dr. Joshua F. Wiley, da Universidade Monash (Austrália), trouxe respostas concretas sobre a aplicação da TCC-I durante a quimioterapia e de forma 100% remota.

O Estudo: TCC-I Remota vs. Fototerapia (Luz Brilhante)

O ensaio clínico randomizado reuniu 219 mulheres em quimioterapia para câncer de mama (estágios iniciais ou metastático) em cinco hospitais australianos. As participantes foram divididas em grupos que receberam, durante 6 semanas:

  • Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) via chamada de áudio ou vídeo;

  • Fototerapia com óculos de luz brilhante por 20 minutos matinais;

  • Combinação de TCC-I + Fototerapia;

  • Grupo controle apenas com educação sobre higiene do sono (presente também nos demais grupos).

Principais Achados Científicos

  • Eficácia Superior da TCC-I: As pacientes que receberam TCC-I apresentaram uma redução significativa e estatisticamente relevante na gravidade da insônia em comparação às que não receberam a terapia cognitivo-comportamental, com um declínio adicional de 2 pontos no Insomnia Severity Index ($P = 0,002$).

  • Impacto Clínico Prático: Na prática, essa redução de 2 pontos significa transformar uma dificuldade grave para pegar no sono em uma dificuldade apenas moderada, trazendo impacto direto na rotina da paciente.

  • Fracasso da Fototerapia: Ao contrário de estudos menores anteriores, a terapia com luz brilhante isolada não demonstrou benefício significativo no alívio da insônia (-0,88 pontos; $P = 0,26$) e nem potencializou os efeitos da TCC-I quando combinada.

  • Acessibilidade Digital: A entrega da intervenção por consultas remotas (telefone/vídeo) e envio de materiais semanais por e-mail provou ser viável e eficaz para pacientes debilitadas pela quimioterapia.

Por Que a TCC-I Funciona Tão Bem no Paciente Oncológico?

Segundo o Dr. Daniel L. Hall, co-diretor de medicina comportamental do sono no Massachusetts General Hospital, o grande diferencial da TCC-I é atuar diretamente sobre as crenças e os comportamentos disfuncionais associados ao sono.

Durante a quimioterapia, é comum que a paciente passe muitas horas na cama tentando forçar o descanso. A TCC-I reestrutura essa rotina: se a paciente passa horas rolando na cama sem dormir, a orientação pode ser ir para a cama mais tarde, aumentando a pressão homeostática do sono para reduzir a ansiedade do tempo acordado.

Além disso, os aprendizados da TCC-I geram autonomia, permitindo que a paciente continue aplicando as estratégias ao longo de toda a sua jornada de sobrevivência.

A Atuação Multidisciplinar e o Acompanhamento Clínico

Os achados reforçam a urgência de a equipe multidisciplinar de oncologia rastrear ativamente a qualidade do sono em cada consulta de acompanhamento.

Para profissionais da saúde e farmacêuticos clínicos que atuam no cuidado ao paciente oncológico, o estudo traz direcionamentos práticos:

  • Rastreamento Sistemático: Questionar ativamente sobre a latência do sono, despertares noturnos e impacto na rotina diária.

  • Higiene do Sono Como Base: Orientar horários regulares para deitar e levantar, controle da exposição a telas e ambiente propício ao descanso.

  • Encaminhamento Precoce: Identificar o momento de encaminhar a paciente para profissionais especializados em TCC-I ou programas de intervenção comportamental do sono.

  • Cuidado Com a Automedicação: Evitar a dependência contínua de hipnóticos e sedativos sem intervenção comportamental paralela, priorizando estratégias não farmacológicas de primeira linha.

A inclusão de intervenções comportamentais estruturadas e acessíveis remotamente representa um avanço essencial para humanizar o tratamento quimioterápico, oferecendo qualidade de vida e suporte integral à paciente.


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Kelen Vitorazzi Farmacêutica Clínica, Especialista em Oncologia e Mentoria para Consultório Farmacêutico.

Referência

  • WILDER, Joshua F. et al. Remote Cognitive-Behavioral Therapy for Insomnia Improves Symptoms During Chemo. JAMA Network Open, v. 9, n. 8, e2630320, 2026. Citado por: DOHENY, Kathleen. Medscape Medical News, 1 de setembro de 2026.

 

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